Seattle. 1996.
Estava em estado de paz e tranquilidade que sabia que não iria durar muito tempo. Olhava fixamente para o teto cimentado, tentando entender qual era o sentido de se sentir estúpida. Estava, agora, em um estado de tristeza tão grande, que continuou com os movimentos rápidos e firme com os dedos, para obter um pouco de tranquilidade novamente. Aquela tranquilidade fajuta. Percebia todos os sinas de vida ao seu redor, todos aleatórios. Música de baixa qualidade, gente falando, cachorros latindo, carros passavam. Mas, nunca de importava com isso, já era acostumada. Estava com o seu melhor romance do lado e outros que gostava empilhados de forma brusca. Lia três ou quatro livros de uma largura de aproximadamente seis centímetros, todos os dias. Com uma lata de cerveja importada do lado e um maço de cigarros vazio. Esse era o jeito de passar o tempo…e queria que acabasse logo, pois não iam restar mais romances ou filosofia russa para ler. Levantou, apenas com uma velha e longa camiseta e foi se olhar no espelho. Começou pelos pés, pareciam livres ou até um pouco cansados. Pernas não muito definidas, joelhos avermelhados. Levantou a camiseta com os braços leves. Cintura fina, abdômen com algumas sardas duvidosas, seios cheios apontando para cima. Cravícula branquela e ossuda. Abaixou a camiseta e visualizou seu rosto. Lânguido, cansado. A boca que parecia que tinham desenhado, perfeitamente, com um lápis cor de malva. Olhos cinzas-esverdeados, grandes e com cílios que pareciam postiços. Eram um pouco puxados, fazendo com que a sombrancelha ficasse definida, perfeito para aqueles olhos. Soltou os cabelos, que se desfaziam em ondas perfeitas e negras. Gostava da sensação de sentir os cabelos negros e sem corte batendo nas costas lisas, com aquelas sardas ruivas duvidosas. Era linda, extremamente linda. Qualquer um daria a vida para vê-la daquele estado. Ela, por sua vez, se sentia impotente, vazia e insignificante. Sentou no chão frio e chorou silenciosamente por longos minutos. Foi ao banheiro, tomou um rápido banho gelado e se maquiou levemente, como se estivesse com pressa. Estava com um vestido florido, com flores pequenas e delicadas, como ela. Mangas que cobriam os ombros e um velho oxford caramelo. Penteou os cabelos calmamente e pôs brincos discretos. Examinou o que tinha na sua bolsa e pegou seu cardigã cinza. Saiu do quarto vazio, trancou a porta e respirava profundamente enquanto andava, com o melhor de The Smith’s ao pé do ouvido. Entrou em um pub qualquer e pouco conhecido, também pouco longe. Com poucas pessoas espalhadas, formando alguns grupos. Conversas confusas e risadas pesadas. Sentou na cadeira alta do balcão de madeira rústica, ainda reparando o lugar e observando as pessoas.
- Posso ajudar? - Disse o garoto novo, de cabelo médio com uma expressão pretenciosa. Era bonito, até. A barba mal feita lhe favorecia.
- Uma piña colada dupla e um Malboro Gold, por favor.
Sem muita pressa, analisou a bancada e começou a preparar a bebida. Para adiantar, repousou a pequena embalagem de cigarros para perto da moça, que examinou por poucos segundos e logo em seguida abriu com facilidade o plástico protetor, tirando um cigarro e pousando sobre a boca, agora um pouco seca. Acendeu e ficou ali aguardando o garoto bonito lhe entregar a bebida, olhando pouco interessada para a televisão de imagem ofuscada, num canal local onde passava um filme de leste europeu.
- Aqui está, senhorita. - Abrindo um meio sorriso, sem mostrar os dentes. Ela apenas assentiu com a cabeça, segurando o longo copo e encontrando o canudo escuro. Era a bebida dos deuses! Sentia-se satisfeita com a piña colada e com seu cigarro, que agora procurava um cinzeiro. Ouviu o barulho dos sininhos atrás de si que indicavam que alguém chegava. Olhara rapidamente para trás para ver quem era, mas desistiu no meio do caminho. Ouviu o estalo que a cadeira grande fazia bem ao lado dela. Um rapaz que parecia ter notado a presença dela também. Se entreolharam pouquíssimo. Era “só para certificar de que era mesmo um rapaz”, como assim pensara, por conta do cabelo semelhante ao seu. Reparou em seu coturno cano médio preto, um pouco gasto. Calças beges retas, camiseta branca de banda por dentro da calça jeans.
- Oi? - A voz grave assustou-a. Tinha percebido que estava olhando tanto pro rapaz, que pareceu que queria ajuda ou coisa assim. Ele era tão atraente pra ela, que chegou a lhe dar uma pontada no estômago.
- Sim, me desculpe. Mas, você lembra muito uma pessoa que conheço, estou em dúvida ainda. Seu nome é Perry Guilbert? - “Que pergunta imbecil é essa? Tente não parecer desesperada, tente não parecer desesperada…” pensou.
- Não! Não é Perry Guilbert e sim Stone Gossard…- sorrindo naturalmente.
- Ah, sim…me desculpe! - Sentiu que o sorriso que ele dera, estava esperando mais alguma coisa. - …e bem, sou Hayley. Hayley Lewis. - Disse sorrindo, esperançosa.
- E o que Perry Guilbert tem de tão especial para merecer sua lenta observação? - Indagou ele, rindo quase maliciosamente para ela.
- Nada de tão importante, era um velho amigo do colegial e da banda que a gente tinha, a uns anos atrás…
- Certo…sendo assim, prazer em conhecê-la! - Sorriu mais uma vez.
- Prazer em conhecê-lo também, senhor…- Disse, tentando ser educada com ele.
Stone Gossard lembrou porquê foi a um pub às 2:36 da manhã e cumprimentou o garoto que estava atendendo o balcão. Parece que já se conheciam…mas Hayley, resolveu parar de observá-lo e voltou com The Smith’s no ouvido, pra se distrair e beber mais um pouco. Saiu de lá, exatamente às 3:47. Quando achou que estava bêbada, animada demais com a conversa com Stone e o garoto do balcão. E resolveu que já era hora de ir embora, por estar zonza, apenas. Despediu-se dos meninos, jogando algum dinheiro no balcão e virando logo em seguida. Reconheceu os sininhos e foi andando vagarosamente de volta a sua casa. Cantarolando a boa música que estava ouvindo. Pensamento otimista, até. Não afirmava isso desde…nunca. Talvez uma vez a algum tempo atrás. Chegando em sua casa, de apenas três apertados cômodos, fechou a porta atrás de si e sorrindo um pouco. Parecia cansada, por conta das escadas, mas logo sentiu um “toc toc” em sua porta. Olhou pelo olho mágico. Abriu a porta que fazia ruídos.
- Stone? O que faz aqui? - Perguntou, franzindo o cenho e assustada pela presença inesperada dele.
- Desculpe por segui-la e tudo mais…estava no meu caminho, mas vi esse livro caindo de sua bolsa. - Disse, tranquilizando a situação.
- Ahhh, A Hospedeira… - Pegou o livro satisfeita e quase feliz, pois alguém de bom juízo (até aonde conseguiu o conhecer) tinha encontrado-o. Não tinha percebido ele cair da bolsa.
- Obrigado. Mesmo, Stone! Você salvou a minha vida…esse livro é muito importante. - E sorriu com os olhos cheios de gratidão. Viu Stone dizer “de nada” e fechou a porta. Mas, abriu rapidamente, segundos depois, visualizando Stone a uns 10 metros a sua frente. Ele parou, por causa do barulho da porta da casa de Hayley.
- Stone! - Quase gritando, com certo tom de urgência na voz.
- Sim, Hay? - Falou se aproximando dela.
Estava amanhecendo, então ela apareceu, estendendo a Stone uma caneca de café com um pouco de leite, como ele pediu. Percebeu suas mãos quentes e seus seios encostando nas suas costas. Ele pegou a caneca, sorriram um pro outro e brindaram por eles, pelo sol que estava se oferecendo ao dia e pelos pássaros que cantavam num coro glorioso.
- Parece que te conheço a anos… - disse Gossard, olhando para o horizonte.
- Te conheço a anos, desde a primeira vez que te vi. - Estava ao lado dele, sorrindo e olhando pra mesma direção.
Depois de muito café e muita conversa, sobre leitura, cigarro, suicídio de Kurt Cobain e qual era a ordem certa do Ten…deram muitas risadas. Ela estava realmente feliz, soava estranho pra ela. Graças a Deus. E gostaria de se sentir assim por mais e longas vezes. Sabia não muito sobre ele e ele, obviamente, não sabia tanto dela. Ainda. Se sentia satisfeita ao saber parte da vida de Gossard e achava justo que com certeza, saberia mais dele e ele, dela.
- Hayley, eu já estou indo. Gossard disse, com um certo pesar, pois queria ficar mais um tempo junto a ela…e ela percebia isso.
- Tá bom, querido - Stone sentiu carinho ao ouvir a frase. Deram um longo e morno beijo; olharam-se sorridentes.
- Até quando?
- Até mais. Até mais tarde, é melhor, não é? - Virou-se silencioso, sabendo que ela ainda estava olhando. Stone. Stone Gossard. Não queria esquecer esse nome.
Algum tempo passou depois dessa vez. Hayley resolveu ir ao pub, com esperança de encontrá-lo lá, ou até mesmo perguntar sobre ele, pro garoto do balcão.
- Oi!
- Olá senhorita, como vai? - Sorriu mostrando todos os dentes. Ela sentou na grande cadeira e fungou.
- Por onde anda Stone? - Sendo direta, logo.
- Depois daquele dia, nunca mais o vi. Mas, ele vem aqui frequentemente, pode demorar, mas vem. - Indagou, numa expressão séria. Mas logo descontraiu-se de novo. -…e você gostou mesmo dele, hein? - Riu pouco. Hayley riu.
- É que, bem, ele esqueceu algumas coisas na minha casa…
- Ahhh, agora estou entendendo! - Sarcástico demais. - Mas, ele é bom rapaz. - E riu. Ele era do tipo que adorava brincar com a nossa cara, a qualquer momento. O bom, é que Hayley tinha feito alguma amizade, sendo boa ou ruim. Fazia tempos que não trocava palavra com alguém, ou até mesmo sorria pra alguém. Seattle estava começando a ficar interessante.
- Um maço de Lucky Strike, por gentileza? - Ele achou sem fazer muito esforço, afinal, devia trabalhar ali a muito tempo. Entregou a garota.
- Piña colada?
- Só um café, forte, Tem waffles? Ovos? Alguma coisa mastigável? - Ele apenas saiu do balcão, entrando em uma porta que parecia ser a cozinha. Ela estava preocupada com o que ele poderia estar fazendo.
14 anos. Rock n' roll, reggae, café, halls preta, violão.
January 17, 2012
Teenage Wasteland